terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Cerrado - Patrimônio Brasileiro

Recebemos notícias dos nossos amigos da região de Bauru, que tem trabalhado para conservação do Cerrado paulista, assim como nós estamos aqui no que estamos chamando Cerrado Caipira, interface do Cerrado com a Floresta Setentrional, e Campo de Altitude, da região de Franca ligando corredor que transpõe os limites de MG, GO e MT. Segue o artigo do profº. Ney Vilela:

Caros amigos:

A pedido da ilustre professora Marcia Sobreira, que luta como gigante (no alto de seus generosos um metro e meio de altura!) pela preservação do cerrado da região de Bauru, escrevo esse artigo.

Recebam meu abraço e meu desejo de Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

Ney Vilela

O cerrado é o berço das águas

Ney Vilela*

O Cerrado é o berço das águas, pois nesse domínio fitogeográfico nascem três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul: as do São Francisco, do Tocantins-Araguaia e do Paraná. Todos os biomas brasileiros (os Pampas gaúchos, o Pantanal Matogrossense, a Floresta Amazônica, a Caatinga e a Mata Atlântica) recebem alguma fração de água originária de nascentes localizadas na região do Cerrado.

A generosa existência desses cursos d’água contribuiu para se observar, no Cerrado, a aparição de organismos dos mais variados biomas que, pelos rios, encontraram a via de acesso para migrar e colonizar as regiões mais centrais do nosso território.

O cerrado, que cede tantas águas, pouco guarda para si. Em primeiro lugar, porque o Planalto Central brasileiro, por se tratar de uma região de altitude elevada quando comparado com o restante do país, apresenta grande quantidade de nascentes e corpos hídricos de tamanho pequeno e intermediário. As águas rapidamente se evadem da região sob a forma de corredeiras, ou de belíssimas cachoeiras. Em segundo lugar, porque as características hidrogeológicas da região (com predomínio de rochas metamórficas com fissuras estreitas) limitam o volume de água armazenado. Em suma, os aquíferos do Cerrado armazenam pouca água.

Estamos tirando do Cerrado muito mais do que ele nos pode dar. Em Brasília, por exemplo, existem ladrões de águas subterrâneas. Sei que a constatação de que há ladrões, em Brasília, é surpreendente, mas é verdadeira. As águas superficiais do Distrito Federal, em termos de drenagem, não são abundantes e estão parcialmente comprometidas; em função disso, procura-se água subterrânea para suprir a demanda. E esta água já está acabando.

As ocupações irregulares, a construção indiscriminada de poços artesianos, o avanço de plantações com utilização de fertilizantes e agrotóxicos e a ausência de tratamento de esgoto comprometem a qualidade da água em várias regiões do Cerrado. Além disso, as atividades de mineração vêm provocando alterações no leito de rios em função da retirada do sedimento, modificando o regime hidrológico desses ambientes. Por fim, a construção de usinas hidrelétricas, nos últimos anos, tem devastado os ambientes aquáticos e terrestres do Planalto Central.

Nosso descaso em relação ao patrimônio hídrico do Cerrado é tão grande que permitimos aos chineses a apropriação de imensas quantidades de água que deveríamos proteger para o desfrute de nossas próximas gerações. Como os chineses levam nossa água? Comprando soja! Para se ter uma ideia da dimensão do problema, pensemos no seguinte: para se produzir um quilo de soja é necessário, em média, 600 mm de água. Conclusão: se o Brasil exporta 50 milhões de toneladas de soja, em um ano, também está exportando 30 milhões de toneladas de água... A China é um país que dilapidou irresponsavelmente seu patrimônio hídrico: por isso, trata de se aproveitar do nosso!

Se o Cerrado desaparecer (e esse risco é iminente), os cursos d’água que se dirigem aos Pampas, ao Pantanal, à Mata Atlântica, à Floresta Amazônica, à Caatinga, deixarão de existir, provocando impactos ambientais devastadores nesses biomas. Proteger o Cerrado significa proteger toda a diversidade ecológica de nosso país. Destruí-lo significa matar de sede todos os outros biomas.

* Professor de História Contemporânea da Universidade Sagrado Coração; Coordenador Regional do Instituto Teotônio Vilela de Estudos Políticos

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